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Mostrando postagens de setembro, 2025

O hilário Slapstick, de Vonnegut, e a Psicanálise

Talvez "Slapstick" (aqui no Brasil "Pastelão ou sozinho nunca mais) seja o livro que mais gosto de Kurt Vonnegut. Muitos o consideram o pior. Para mim, a ironia boba, a delicadeza e o absurdismo fazem a genialidade desse livro. A premissa é distópica, típica de Vonnegut. O livro é narrado por Wilbur Daffodil-11 Swain, o último presidente dos Estados Unidos, que vive no Empire State em ruínas em um futuro pós-apocalíptico. Ele conta a história da sua vida, centrada no seu relacionamento com a sua irmã gêmea, Eliza. A tese central do livro é que a solidão é uma praga moderna. Wilbur propõe uma solução absurda: atribuir a cada cidadão um sobrenome novo e aleatório. Pessoas com o mesmo sobrenome seriam "irmãos" ou "primos" artificiais, criando uma rede de família obrigatória para combater a solidão. Quando crianças, Wilbur e Eliza são considerados deficientes ("retarded") quando separados. No entanto, quando estão juntos formam uma mente genial,...

Nem tudo é doença transtorno ou patologia

O sistema capitalista faz o possível para nos colocar "etiquetas". Cada vez mais, a singularidade é vista como um transtorno a ser tratado. Introversão é fobia social, tristeza é depressão. Pessoas sensíveis, quietas, que preferem o vínculo com animais são frequentemente vistas como problemáticas e induzidas a medicaçōes para se adequarem a um padrão normativo.  Mas por que as diferenças afrontam tanto a sociedade? Historicamente, a patologização foi usada para oprimir grupos marginalizados. Mulheres que desafiavam os papéis de gênero eram diagnosticadas com "histeria". Criar patologias é uma ferramenta poderosa para silenciar dissidências e manter estruturas de poder. As sociedades criam normas para manter a ordem, a previsibilidade e a coesão. Muitas vezes, comportamentos, identidades ou experiências que fogem à norma são percebidos como uma ameaça a essa ordem. Rotulá-los como "doença" é uma maneira de gerenciar e controlar essa ameaça, transferindo a q...

Filmes de terror são nocivos para a psique?

Filmes de terror atuam como uma espécie de "laboratório seguro" para nossas emoções mais primitivas. Os efeitos são complexos, com malefícios e benefícios entrelaçados. A Psicanálise vê o horror como uma expressão do nosso inconsciente e das pulsões, especialmente a pulsão de morte - Thanatos. No horror, assistimos a medos profundos sendo externalizados e, muitas vezes, resolvidos na narrativa. Isso permite liberarmos ansiedades e tensões internas de forma catártica e segura, transformando nossas pulsões agressivas ou destrutivas em uma experiência socialmente aceitável. Da mesma forma, ao nos identificarmos com o protagonista que sobrevive a terríveis provações, nós fortalecemos simbolicamente nosso ego - parte da psique que lida com a realidade. A mensagem é: "Se ele/ela conseguiu superar isso, eu posso superar meus problemas". Filmes de terror frequentemente lidam com temas recalcados (reprimidos) pela sociedade e pelo indivíduo: sexualidade, violência primal, me...

O que é a frustração para Winnicott?

Viver é frustrar-se constantemente, não é? Esta não é uma visão pessimista da vida, longe disso. É uma realidade que precisamos lidar de forma flexível, madura e bem-humorada. E de onde vem a sensação de nos frustrarmos? A Psicanálise vê a frustração como um conceito central para entender o comportamento humano, pois ela seria o motor do desejo. Para Freud, a frustração não é um simples acontecimento externo. Ela é inerente à condição humana e está na raiz da formação do psiquismo. O ser humano é regido pelo Princípio do Prazer - que busca a satisfação imediata e total dos impulsos -, mas está sempre esbarrando em três freios: 1 - O Princípio da Realidade: O mundo externo não satisfaz nossos desejos imediatamente. É preciso trabalhar, esperar, adiar... 2 - As regras sociais e morais que frustram nossos desejos anti-sociais. 3 - O desejo sendo sempre "desejo do Outro". Não desejamos um objeto em si, mas desejamos ser desejados pelo Outro ou desejar o que ele deseja. Essa dinâm...

"Conhece-te a ti mesmo". Autoconhecimento existe?

"Conhece-te a ti mesmo" é um dos mais importantes ensinamentos filosóficos da Grécia Antiga. A expressão é atribuída ao Oráculo de Delfos, santuário dedicado ao deus Apolo. Lá, as inscrições como "Conhece-te a ti mesmo" e "Nada em excesso" adornavam o pórtico do templo, servindo como conselhos aos visitantes. O filósofo Sócrates popularizou a frase utilizando-a como base para seu método filosófico, a maiêutica. Assim, seu significado vai muito além de uma simples introspecção. Ele reflete: - Autocrítica e humildade: Reconhecer os limites do conhecimento e evitar a arrogância. - Compreensão da natureza humana: Entender nossas virtudes, vícios, motivações e emocões. - Alerta contra a hybris (desmesura): Lembra que nós humanos não somos deuses e devemos evitar o excesso de orgulho "Conhece-te a ti mesmo" é a base da filosofia ocidental: Influenciou não só Sócrates, mas nossa psicologia moderna, sendo um pilar na terapia cognitivo-comportamental e do...