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A maldição de Kierkegaard e o trauma geracional

A vida e a filosofia de Soren Kierkegaard me emocionam bastante. Nascido na Dinamarca em 1813, o rapaz angustiado, brilhante e outsider, teve uma vida marcada pela sensação de incompletude vinda de um trauma geracional. O pai de Kierkegaard, Michael, qdo jovem e pastor de ovelhas, passou por um momento de desespero profundo. Sentindo-se abandonado, subiu uma colina e amaldiçoado a Deus. Este ato o assombrou pelo resto da vida, fazendo-o acreditar q Deus o puniria. Estava convencido de q carregava uma maldição: todos os seus filhos morreriam antes de completarem 34 anos. De fato, a profecia quase se concretizou completamente. Dos sete filhos, cinco morreram jovens. Três morreram ainda crianças e outros dois faleceram aos 20 anos. Apenas Søren e seu irmão mais velho, Peter, sobreviveram à juventude. Neste ambiente de medo e culpa foi onde a filosofia de Kierkegaard floresceu. A herança da angústia tornou-se trauma: Kierkegaard cresceu acreditando q também estava sob a maldição e iria mor...

Artes e Natureza: A importância do brincar na vida adulta

A obra de Winnicott realmente nos convida a pensarmos a Psicanálise para além do consultório, na vida q pulsa nas artes e na natureza. Para ele, é fundamental q nós adultos reservamos um espaço diário para a brincadeira, um espaço onde podemos viver nossa autenticidade. Para entendermos a importância do brincar, preciso começar pelo conceito de objeto transicional. Objeto transcional é a primeira possesão não-eu do bebê, como um bichinho de pelúcia, por exemplo. Existe num espaço intermediário entre a realidade interna do bebê e a realidade externa compartilhada. Essa é a "terceira área" da experiência humana, uma zona de ilusão onde o bebê cria e ao mesmo tempo encontra o objeto. Winnicott expandiu essa ideia do bebê para a vida adulta. Para ele, essa área intermediária não desaparece; ela é o próprio lugar da experiência cultural . É aí q as artes e o contato com a natureza, por exemplo, tornam-se manifestações dessa terceira área, um espaço potencial de experimentação, cri...

Os animais no atravessamento do luto

Há tempos abordo em meu trabalho a importância do olhar inter-espécies para o bem-viver e o papel dos animais no processo de luto é transformador. Eles ocupam um espaço único e sensível de conforto e conexão com a vida.  Quando minha mãe faleceu em 2021, meu gato Cuscuz foi determinante para minha travessia e renovação. Além dele, todos os animais q visitavam e habitavam as redondezas de onde eu moro: os pássaros, os insetos, os gambás, as cobras, os macacos. Era vida pulsante e tudo o q eu precisava naquele momento.  Embora luto não seja, por definição, somente sobre o falecimento de um ente querido, falo aqui especificamente de morte.  - Quando a morte chega - a dor aguda Nos primeiros dias e semanas do luto, a dor pode ser avassaladora e paralisante. É aqui q os animais atuam como âncoras emocionais. O simples ato de acariciarmos um animal ou calor de seu corpo deitado ao nosso lado é um conforto tátil que palavras não conseguem expressar. É uma presença viva e quente ...

Os vampiros e a Psicanálise

Revi "Nosferatu", de Werner Herzog. Talvez seja a representação de Nosferatu que eu mais goste. Refleti sobre o fascínio que os vampiros causam na maior parte das pessoas, pela obscuridade que transcende o folclore e se torna uma representação simbólica de impulsos psíquicos profundos, conflitos internos e dinâmicas sociais. A estrutura da psique proposta por Freud se encaixa perfeitamente na figura do vampiro: · O vampiro é a personificação pura do Id – a parte da psique movida pelo princípio do prazer, pelos desejos primitivos e impulsos agressivos. Sua sede de sangue representa impulsos sexuais e thanáticos (de morte) incontroláveis. · A sociedade, com suas cruzes, água benta e convites para entrar, representa o Superego. São as regras, proibições e a moralidade que tentam conter e punir os impulsos do Id. · O vampiro que luta para manter sua humanidade, que se alimenta de sangue animal, representa o Ego. Ele tenta mediar entre o desejo incontrolável (Id) e a necessidade d...

Mulher que esmagava animais com o salto alto. O que é sadismo?

Falar sobre crueldade contra os animais é muito difícil para mim. Fico consternada, mas é necessário. Por eles, por todos os seres inocentes.  Esta semana eu li no @forumanimal sobre uma mulher que fazia vídeos esmagando animais até a morte usando o salto alto. Não, não é mentira, embora gostaríamos que fosse. O que faz alguém cometer tamanha barbárie e ainda lucrar com isso? Se o vídeo é feito, é porque existe demanda, quem pague para assistir. Quem são as pessoas que se satisfazem com o sofrimento de outro ser? Já escrevi anteriormente sobre o que leva um ser humano a abusar, torturar e matar animais e, desta vez, quero abordar o que é o sadismo. Na Psicanálise, o sadismo é entendido como uma pulsão, uma força interna fundamental da psique humana. Está ligado à pulsão sexual e à pulsão de morte.  Inicialmente, Freud via o sadismo como a parte agressiva da pulsão sexual. A excitação sexual poderia estar ligada à ideia de dominar, possuir ou submeter o objeto de desejo. Com a ...

Fausto e Mephisto. O desejo do desejo do desejo

 A obra Fausto é o magnum opus do escritor alemão Johann Wolfgang von Goethe. O que torna a vida digna de ser vivida?  A peça narra a história do Dr. Heinrich Fausto, um erudito que, apesar de ter acumulado todo o conhecimento acadêmico imaginável, sente um vazio existencial profundo. Ele está desiludido com o conhecimento dos livros e anseia por experiências verdadeiras e uma compreensão dos mistérios fundamentais da vida. No mesmo momento, o diabo Mephisto, faz uma aposta com o anjo Miguel de que consegue desviar um bom homem do caminho divino. Mephisto ouve o chamado angustiante de Fausto e assim surge o pacto entre os dois. O pacto não é, em sua essência, por riqueza, poder ou juventude eterna. O motivo central é a insatisfação com os limites do conhecimento e da experiência humana. Fausto dedicou toda a sua vida ao estudo - teologia, direito, medicina, ciências - e chegou à velhice percebendo que nada sabe de verdade. A sua crise existencial é profunda: o conhecimento não...

Dia de Los Muertos e a linda lição simbólica da morte

Fui na celebração do Dia de Los Muertos no Museu na República, aqui no Rio. Lindo demais. Quis saber mais sobre os simbolismos da festa e a relação dos mexicanos com a morte, tema central no meu trabalho como psicanalista. O Día de los Muertos representa uma visão de mundo única sobre a vida, a morte e a conexão entre os dois mundos. Em vez de ser um dia triste, é uma celebração colorida e cheia de vida, que honra a memória dos entes queridos que já partiram. Seus simbolos pricipais A Calavera (caveira) e a calavera Catrina A caveira no Dia dos Mortos nos lembra que a morte é uma parte natural e inevitável da vida, e que devemos rir e celebrar. As caveiras feitas de doce, chamadas calaveras de alfeñique, representam os falecidos de forma lúdica. Especificamente, a Calavera Catrina, criada pelo cartunista José Guadalupe Posada e imortalizada por Diego Rivera, é um ícone. Ela satiriza a elite da era porfiriana (a ditadura de Porfírio Diaz) e simboliza a ideia de que, independentemente da...