O hilário Slapstick, de Vonnegut, e a Psicanálise
Talvez "Slapstick" (aqui no Brasil "Pastelão ou sozinho nunca mais) seja o livro que mais gosto de Kurt Vonnegut. Muitos o consideram o pior. Para mim, a ironia boba, a delicadeza e o absurdismo fazem a genialidade desse livro.
A premissa é distópica, típica de Vonnegut. O livro é narrado por Wilbur Daffodil-11 Swain, o último presidente dos Estados Unidos, que vive no Empire State em ruínas em um futuro pós-apocalíptico. Ele conta a história da sua vida, centrada no seu relacionamento com a sua irmã gêmea, Eliza.
A tese central do livro é que a solidão é uma praga moderna. Wilbur propõe uma solução absurda: atribuir a cada cidadão um sobrenome novo e aleatório. Pessoas com o mesmo sobrenome seriam "irmãos" ou "primos" artificiais, criando uma rede de família obrigatória para combater a solidão.
Quando crianças, Wilbur e Eliza são considerados deficientes ("retarded") quando separados. No entanto, quando estão juntos formam uma mente genial, uma entidade que concebe soluções brilhantes para os problemas do mundo. A separação dos dois é uma catástrofe que os condena à mediocridadr.
Para Vonnegut, a vida é uma comédia pastelão, uma farsa trágica. O livro mistura a depressão com o ridículo, o sublime com o absurdo. É um terreno fértil para interpretações psicanalíticas.
A dinâmica entre Wilbur e Eliza é uma representação quase literal de conceitos tradicionais da Psicanálise, representamndo a divisão primordial do sujeito. Juntos, são um "self" completo e genial; separados, são seres fragmentados e inadequados. Isso ecoa a ideia de que nossa psique é composta de partes que precisam estar em relativo equilíbrio. A criação da política de "famílias artificiais" é uma tentativa desesperada de reproduzir (e recuperar) a conexão perdida com a irmā Eliza, em escala macro.
A crítica à "cura" racional
A solução de Wilbur é racional, burocrática e artificial para um problema profundamente emocional e humano - a solidão. A falha desse sistema é uma crítica à ideia de que podemos consertar os conflitos humanos com respostas lógicas, ignorando a complexidade do inconsciente e dos afetos.
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"Slapstick" é uma história sobre a necessidade de comunidade e conexão humana em um mundo que se fragmenta, e sobre a tragédia da incompreensão de relações e isolamento.
O livro pode ser lido como uma alegoria sobre o psiquismo humano: a busca por completude, o trauma da separação, a luta entre o desejo de união e a individuação, e as tentativas, muitas vezes desastrosas, de criarmos estruturas simbólicas para darmos conta de um vazio fundamental.
Meu querido Vonnegut fala com muito humor de nosso desejo mais básico: o de não estarmos sozinhos.
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