Nem tudo é doença transtorno ou patologia

O sistema capitalista faz o possível para nos colocar "etiquetas". Cada vez mais, a singularidade é vista como um transtorno a ser tratado. Introversão é fobia social, tristeza é depressão. Pessoas sensíveis, quietas, que preferem o vínculo com animais são frequentemente vistas como problemáticas e induzidas a medicaçōes para se adequarem a um padrão normativo. 

Mas por que as diferenças afrontam tanto a sociedade?

Historicamente, a patologização foi usada para oprimir grupos marginalizados. Mulheres que desafiavam os papéis de gênero eram diagnosticadas com "histeria". Criar patologias é uma ferramenta poderosa para silenciar dissidências e manter estruturas de poder.

As sociedades criam normas para manter a ordem, a previsibilidade e a coesão. Muitas vezes, comportamentos, identidades ou experiências que fogem à norma são percebidos como uma ameaça a essa ordem. Rotulá-los como "doença" é uma maneira de gerenciar e controlar essa ameaça, transferindo a questão do campo moral ou político para o campo médico, tirando a responsabilidade da sociedade de se questionar e a coloca no indivíduo, que precisa ser "consertado" ou "curado".

O Biopoder de Foucault 

A partir dos séculos XIX e XX, a medicina se tornou a principal autoridade para definir o que é "normal" e "saudável" em termos de corpo e mente. Esse poder, que o filósofo Michel Foucault chamou de "biopoder", é immenso. O diagnóstico médico tem um peso de "verdade científica", o que pode ser usado para validar preconceitos sociais. Por exemplo, a homossexualidade foi listada como um distúrbio mental no manual de psiquiatria (DSM) até 1973. Era a medicina legitimando a homofobia social.

O papel da indústria farmacêutica

A indústria farmacêutica tem um papel significativo nesse processo, em um fenômeno conhecido como "disease mongering" ou "invenção de doenças". Quanto mais condições são medicalizadas, mais mercado se abre para medicamentos, terapias e tratamentos.

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O rótulo de "doente" pode ser carregado de estigma. A pessoa passa a ser vista primeiro pela sua "condição" e não por sua individualidade. Suas opiniões, desejos e experiências podem ser invalidados, ela perde a autoridade sobre sua própria narrativa de vida.

A vida é cheia de altos e baixos: tristeza, luto, angústia, dúvida. São experiências humanas universais. Patologizar essas emoções nega nossa humanidade e nos torna dependentes de medicações para lidarmos com desafios que poderiam ser trabalhados de outras formas.

Mas o maior problema é desviar o foco dos malefícios do sistema capitalista. Se um problema é enquadrado como doença individual, a solução se torna tratar o indivíduo. Isso desvia a atenção das causas sociais do sofrimento. Em vez de perguntar "Por que nossa sociedade gera tanta ansiedade?", nós medicalizamos a pessoa ansiosa. Em vez de questionar "Por que as escolas não são inclusivas?", diagnosticamos crianças com "transtornos de aprendizagem".

No entanto, é importante evitar o oposto e negar a existência de condições mentais genuinamente debilitantes, como a esquizofrenia, transtorno bipolar grave, depressão profunda, por exemplo. O caminho é o discernimento: Isso causa sofrimento significativo e prejuízo para a própria pessoa ou está apenas causando desconforto e estranhamento nos outros?


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