O que é a frustração para Winnicott?
Viver é frustrar-se constantemente, não é? Esta não é uma visão pessimista da vida, longe disso. É uma realidade que precisamos lidar de forma flexível, madura e bem-humorada.
E de onde vem a sensação de nos frustrarmos?
A Psicanálise vê a frustração como um conceito central para entender o comportamento humano, pois ela seria o motor do desejo. Para Freud, a frustração não é um simples acontecimento externo. Ela é inerente à condição humana e está na raiz da formação do psiquismo.
O ser humano é regido pelo Princípio do Prazer - que busca a satisfação imediata e total dos impulsos -, mas está sempre esbarrando em três freios:
1 - O Princípio da Realidade: O mundo externo não satisfaz nossos desejos imediatamente. É preciso trabalhar, esperar, adiar...
2 - As regras sociais e morais que frustram nossos desejos anti-sociais.
3 - O desejo sendo sempre "desejo do Outro". Não desejamos um objeto em si, mas desejamos ser desejados pelo Outro ou desejar o que ele deseja. Essa dinâmica é, por natureza, frustrante, pois o Outro é sempre incompleto e não pode nos dar a satisfação que fantasiamos.
A frustração para Winnicott
Para Winnicott, a frustração não é um mal a ser evitado, mas um elemento fundamental e positivo no desenvolvimento do self autêntico. É através da frustração que o bebê deixa de ser uma extensão da mãe e começa a existir como um indivíduo separado.
No início da vida, a mãe (ou cuidadora) oferece uma dedicação exclusiva ao bebê. Nessa fase, ela se adapta quase perfeitamente às suas necessidades, atendendo seus gestos espontâneos (fome, calor, colo) de modo quase mágico. Isso cria uma ilusão de onipotência no bebê. Há pouca ou nenhuma frustração. Essa adaptação inicial é essencial para fornecer um ambiente de sustentação (holding) seguro, que permite ao bebê começar a existir sem ser tomado por ansiedades.
O cerne da teoria de Winnicott está no que acontece depois.
A mãe "suficientemente boa" não é perfeita. Aos poucos, ela começa a "falhar" de maneira gradual. Ela demora um pouco mais para amamentar, volta sua atenção para outras coisas, etc. Essas "falhas" são, na verdade, frustrações necessárias e benéficas. Elas rompem a ilusão de onipotência do bebê.
Quando a frustração é introduzida de forma gradual e não traumática, isso força o bebê a confrontar a realidade externa. Ele percebe que o mundo não é uma extensão de sua vontade e, por isso, ele precisa mobilizar seus próprios recursos internos. Ele começa a se tornar um indivíduo, separado da mãe.
O bebê descobre que, embora o mundo não ceda magicamente aos seus desejos, ele pode agir sobre ele. Isso substitui a onipotência por uma sensação de eficácia real.
Portanto, para Winnicott, a frustração é o limite que define o "eu" e o "não-eu". O bebê entende que existem coisas fora de seu controle, que pertencem a um mundo externo compartilhado.
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A frustração é um afeto constitutivo. Vem da impossibilidade fundamental de sermos totalmente satisfeitos. É essa falta, essa "não-satisfação", que faz o desejo fluir e nos impulsionar na vida. Sem frustração, não há desejo, não há busca. A neurose, portanto, é muitas vezes uma tentativa de lidar mal com essa frustração, buscando uma satisfação impossível ou se queixando da falta.
(Texto publicado em meu IG em 11/09/2025)
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