Os vampiros e a Psicanálise
Revi "Nosferatu", de Werner Herzog. Talvez seja a representação de Nosferatu que eu mais goste. Refleti sobre o fascínio que os vampiros causam na maior parte das pessoas, pela obscuridade que transcende o folclore e se torna uma representação simbólica de impulsos psíquicos profundos, conflitos internos e dinâmicas sociais.
A estrutura da psique proposta por Freud se encaixa perfeitamente na figura do vampiro:
· O vampiro é a personificação pura do Id – a parte da psique movida pelo princípio do prazer, pelos desejos primitivos e impulsos agressivos. Sua sede de sangue representa impulsos sexuais e thanáticos (de morte) incontroláveis.
· A sociedade, com suas cruzes, água benta e convites para entrar, representa o Superego. São as regras, proibições e a moralidade que tentam conter e punir os impulsos do Id.
· O vampiro que luta para manter sua humanidade, que se alimenta de sangue animal, representa o Ego. Ele tenta mediar entre o desejo incontrolável (Id) e a necessidade de viver no mundo (Superego). O sofrimento do vampiro "civilizado" é o sofrimento do Ego sob pressão constante.
Sexualidade reprimida e pulsões
A mordida no pescoço é altamente erótica, envolvendo intimidade, penetração e troca de fluidos corporais. É um ato que simultaneamente dá prazer e dor, vida e morte, sem a necessidade do ato sexual convencional.
O vampiro é a fusão das pulsões fundamentais: pulsão de vida (Eros) e Pulsão de Morte (Thanatos). Ele está eternamente preso entre a vida (é imortal) e a morte. Seu ato de alimentar-se (Eros, prazer) é também um ato de destruição (Thanatos, morte).
A Melancolia
O vampiro é a figura melancólica por excelência. Ele não pode seguir em frente, não pode morrer e não pode viver plenamente. Ele está preso em um luto eterno por sua própria humanidade perdida. Esta é uma representação poderosa de um trauma não resolvido.
A Relação Sádico-Masoquista
A dinâmica entre o vampiro e sua vítima é frequentemente sádico-masoquista. O vampiro experimenta prazer (sádico) no ato de dominar e subjugar, enquanto a vítima, em muitas narrativas, mostra uma fascinação e uma entrega que bordejam o masoquismo. A cena clássica da vítima que oferece o pescoço, num êxtase simultaneamente de terror e prazer, ilustra perfeitamente essa complexa relação.
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A mitologia dos vampiros é uma narrativa externalizada sobre nossos desejos incontroláveis, nossa luta entre a civilização e a barbárie, nosso medo da morte e nosso desejo por imortalidade. A psicanálise fornece a linguagem e a estrutura para decifrar esses símbolos, mostrando que o vampiro é, em última análise, um espelho sombrio da própria psique humana.
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