Fausto e Mephisto. O desejo do desejo do desejo
A obra Fausto é o magnum opus do escritor alemão Johann Wolfgang von Goethe. O que torna a vida digna de ser vivida?
A peça narra a história do Dr. Heinrich Fausto, um erudito que, apesar de ter acumulado todo o conhecimento acadêmico imaginável, sente um vazio existencial profundo. Ele está desiludido com o conhecimento dos livros e anseia por experiências verdadeiras e uma compreensão dos mistérios fundamentais da vida.
No mesmo momento, o diabo Mephisto, faz uma aposta com o anjo Miguel de que consegue desviar um bom homem do caminho divino. Mephisto ouve o chamado angustiante de Fausto e assim surge o pacto entre os dois.
O pacto não é, em sua essência, por riqueza, poder ou juventude eterna. O motivo central é a insatisfação com os limites do conhecimento e da experiência humana. Fausto dedicou toda a sua vida ao estudo - teologia, direito, medicina, ciências - e chegou à velhice percebendo que nada sabe de verdade.
A sua crise existencial é profunda: o conhecimento não lhe deu acesso ao significado da vida, à verdade última ou à verdadeira realização. Ele está entediado, desiludido e preso em seus estudos.
E, na visão da Psicanálise, o que levou Fausto a seu vazio existencial e a realização do pacto com Mephisto?
A psicanálise vê o desejo como estruturalmente insaciável. Ele não é uma simples necessidade como fome ou sede, que pode ser saciada, mas uma força constante que se move de objeto em objeto. O desejo é o desejo do desejo – o desejo de continuar desejando.
Esta é a essência do pacto com Mephisto. Fausto não pactua por um objeto específico (riqueza, poder, amor), mas pela experiência plena do desejo em si. A condição para a perda de sua alma – pedir que um instante perdure – é justamente o momento em que o desejo cessaria, a pulsão de vida se extinguiria. Fausto, ao aceitar o pacto, está, na verdade, apostando na natureza infinita de seu próprio desejo. Mephisto, por outro lado, aposta na possibilidade de saturá-lo e entediá-lo.
A salvação pela aceitação do desejo (e não pela sua realização)
O momento da "salvação" de Fausto é puramente psicanalítico. Ele não é salvo por ter sido bom, puro ou por ter realizado seu desejo. Ele é salvo no exato momento em que aceita a condição fundamental do desejo: sua incompletude.
Quando ele diz a fase chave, ele não está se referindo a um prazer consumado, mas à antecipação de um desejo realizado no futuro. Ele, finalmente, encontra satisfação não na posse, mas no próprio ato de desejar e agir.
...
O pacto de Fausto e a psicanálise exploram os conflitos da psique humana: a luta eterna entre a razão e o desejo, a busca por um significado que sempre foge, o sofrimento inerente à nossa finitude e à repressão necessária para a vida em sociedade.
A grande lição é: a saúde psíquica não está na satisfação completa, mas na capacidade de sustentar o desejo, de continuar a buscar e de canalizar essa energia (libido) para a vida e a criação, aceitando essa falta constitutiva que nos move.
(Texto publicado em IG em 05/11/25)
Comentários
Postar um comentário