Os animais no atravessamento do luto

Há tempos abordo em meu trabalho a importância do olhar inter-espécies para o bem-viver e o papel dos animais no processo de luto é transformador. Eles ocupam um espaço único e sensível de conforto e conexão com a vida. 

Quando minha mãe faleceu em 2021, meu gato Cuscuz foi determinante para minha travessia e renovação. Além dele, todos os animais q visitavam e habitavam as redondezas de onde eu moro: os pássaros, os insetos, os gambás, as cobras, os macacos. Era vida pulsante e tudo o q eu precisava naquele momento. 

Embora luto não seja, por definição, somente sobre o falecimento de um ente querido, falo aqui especificamente de morte. 


- Quando a morte chega - a dor aguda


Nos primeiros dias e semanas do luto, a dor pode ser avassaladora e paralisante. É aqui q os animais atuam como âncoras emocionais.

O simples ato de acariciarmos um animal ou calor de seu corpo deitado ao nosso lado é um conforto tátil que palavras não conseguem expressar. É uma presença viva e quente q conforta o vazio e o frio emocional. Neste momento sensível, podemos conversar com eles, chorar à vontade, ficar em silêncio ou contar histórias sobre a pessoa q partiu. 

A dor q nós sentimos pode fazer com q os dias se tornem uma névoa sem significado. No entanto, o animal precisa de cuidados regulares: tem q ser alimentado e às vezes temos q passear com eles. Esta necessidade nos obriga a nos levantarmos e cumprirmos pequenas tarefas, oferecendo uma estrutura mínima ao dia q, de outra forma, poderia não existir.


- O atravessamento do luto


O luto é um processo, não um estado. E os animais são companheiros leais para essa longa caminhada.

Um cachorro, por exemplo, pode apoiar a cabeça no nosso colo quando estamos chorando; um gato pode vir ronronar quando sente a nossa tristeza. Esta resposta valida a nossa dor e, ao mesmo tempo, oferece um conforto q nos ajuda a regular uma intensa. A respiração do animal, o seu ritmo cardíaco, podem nos ajudar a desacelerarmos e acalmarmos nossas ansiedades.

Da mesma forma, o luto nos prende muito ao passado e à ausência. E os animais vivem no presente. Então, quando estamos com eles, somos puxados para o presente e à lembrança de q há momentos de prazer e afeto ainda disponíveis. Eles são pontes entre a nossa dor e a realidade do mundo vivo.

Por vezes, enxergamos os animais como espelhos. Nós projetamos nossa dor e a expressamos através dele. Podemos sentir uma vontade imensa de proteger um animal, de não o deixar sozinho, o q espelha nossa própria sensação de abandono e necessidade de proteção. Cuidar dele é uma forma de cuidarmos de nós mesmos.


- A recuperação do luto, novos significados e a abertura para o futuro


Com o tempo, a dor aguda transforma-se numa saudade mais calma e o papel do animal também evolui.

Cuidar de um ser que depende de nós traz renovação à vida. Saber que somos uma referência, o porto seguro daquele animal, pode nos ajudar a reconstruirmos autoestima e nosso sentido de utilidade, abalados pela perda.

Passear com o cachorro cria oportunidades de interação com outras pessoas. Estas pequenas interações podem ser o primeiro passo para se (re)conectar com o mundo exterior, combatendo o isolamento que o luto muitas vezes provoca. 

Paradoxalmente, conviver com um animal, cuja expectativa de vida é mais curta, pode nos ajudar a refletir sobre a beleza e a fragilidade da vida. Eles nos ensinam diariamente sobre amor e perda, nos ajudando a integrar a ideia de que a dor e o amor andam de mãos dadas.

.......

Os animais são facilitadores de nossa cura física, emocional e espiritual. Eles caminham do nosso lado, aquecem nossos silêncios e, com a sua simples existência, lembra-nos que o amor e a vida persistem, mesmo na ausência.

Permita-se enxergar a sensibilidade e a se entregar às relações inter-espécies. 


(Texto publicado em meu IG em 19/03/2026)

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