A maldição de Kierkegaard e o trauma geracional

A vida e a filosofia de Soren Kierkegaard me emocionam bastante. Nascido na Dinamarca em 1813, o rapaz angustiado, brilhante e outsider, teve uma vida marcada pela sensação de incompletude vinda de um trauma geracional.

O pai de Kierkegaard, Michael, qdo jovem e pastor de ovelhas, passou por um momento de desespero profundo. Sentindo-se abandonado, subiu uma colina e amaldiçoado a Deus.

Este ato o assombrou pelo resto da vida, fazendo-o acreditar q Deus o puniria. Estava convencido de q carregava uma maldição: todos os seus filhos morreriam antes de completarem 34 anos.

De fato, a profecia quase se concretizou completamente. Dos sete filhos, cinco morreram jovens. Três morreram ainda crianças e outros dois faleceram aos 20 anos. Apenas Søren e seu irmão mais velho, Peter, sobreviveram à juventude.

Neste ambiente de medo e culpa foi onde a filosofia de Kierkegaard floresceu.

A herança da angústia tornou-se trauma: Kierkegaard cresceu acreditando q também estava sob a maldição e iria morrer jovem. A relação com o pai o introduziu ao conceito de q o sofrimento e a culpa podem ser transmitidos entre gerações.

Ao conhecer e se apaixonar pela jovem Regine, sua "maldição" interior o convenceu de q não poderia se casar, pois carregava uma melancolia q arrastaria Regine para uma vida de infelicidade. O noivado foi rompido para q ele assumisse sozinho o seu "fardo".

Assim, a "maldição" de Kierkegaard é, na verdade, a melancolia e o medo da punição divina herdados de seu pai. Longe de ser uma superstição, foi a experiência visceral de viver sob a sentença de morte iminente e testemunhar a morte dos irmãos q moldou sua filosofia existencial sobre a angústia, o desespero e a necessidade de um "salto de fé" para viver de forma autêntica.

Abaixo, cito brevemente dois de seus conceitos mais importantes:

Angústia (Angest)

Para Kierkegaard, a angústia não é medo de algo concreto, mas uma vertigem da liberdade. É a sensação q sentimos diante das infinitas possibilidades da vida. Ele usa a imagem de um homem à beira de um abismo: não teme cair, mas sim a possibilidade de se jogar. A angústia é essa "tontura" da liberdade diante do nada.

Autenticidade

Kierkegaard criticava a vida impessoal. Ser autêntico significa fazer uma escolha radical e assumir a própria existência, mesmo sem garantias. Isso envolve usalto da fé – escolher acreditar sem provas objetivas; assumir a própria angústia ao invés de fugirmos dela e recusarmos viver no "impessoal" - o que todo mundo faz.


(Texto publicado em meu IG em 17/06/2024)

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