O filme Psicose e a Psicanálise
O filmaço "Psicose" (1960) de Hitchcock é um estudo sobre as consequências catastróficas quando o Complexo de Édipo não é superado e os mecanismos de defesa do Ego falham terrivelmente. A Psiquiatria dá o diagnóstico, enquanto a Psicanálise nos traz a narrativa profunda do sofrimento psíquico que levou àquela condição.
Sob a perspectiva psiquiátrica moderna, Norman Bates apresentaria Transtorno Dissociativo de Identidade (TDI), popularmente conhecido como "Personalidade Múltipla".
Vamos destrinchar os sintomas de Bates:
- Dissociação e Identidade Fragmentada
A mãe como identidade alternada: Norman não apenas ouve vozes ou tem impulsos; ele se torna a "mãe". Ele adota sua voz, sua postura, sua maneira de falar e até sua visão de mundo misógina e possessiva. Esta é uma fuga extrema da sua própria identidade, que ele considera fraca.
- Amnésia Dissociativa
Após os crimes cometidos no estado de "mãe", Norman (como ele mesmo) não tem lembrança consciente do ocorrido. Ele genuinamente acredita que sua mãe cometeu os assassinatos e age para protegê-la, limpando as cenas do crime.
- Psicose - Alucinações auditivas e ideação delirante
Norman ouve a voz da sua mãe criticando-o, dando ordens e interagindo com ele. Seu delírio central é a crença de que sua mãe ainda está viva. Ele constrói uma realidade interna que nega a morte dela.
- Esquizofrenia Paranoide (Talvez)
Alguns sintomas se sobrepõem, como os delírios paranoicos e as alucinações. No entanto, o TDI é considerado um diagnóstico mais preciso no caso dele, devido à presença de identidades distintas e bem formadas.
Conceitos da Psicanálise que encontramos no filme
O filme é um prato cheio para conceitos psicanalíticos.
Complexo de Édipo não-resolvido
Este é o conceito central para entender Norman. Na teoria freudiana, o menino tem desejos inconscientes pela mãe e vê o pai como um rival. Para se desenvolver saudavelmente, ele deve reprimir esses desejos e identificar-se com o pai.
No caso de Norman, o Complexo de Édipo nunca foi resolvido. Sua ligação com a mãe era tão intensa que a ideia de tê-la para si mesmo era avassaladora. O assassinato do "rival" (o amante da mãe) é a realização literal e distorcida desse complexo.
Projeção
A "Mãe" internalizada projeta toda a raiva, o ciúme e os impulsos violentos de Norman. Quando ele sente atração por uma hóspede, é a "Mãe" quem sente ciúmes mortais. A parte "má" é atribuída à identidade da mãe, permitindo que Norman permaneça, em sua própria mente, o menino inocente e dedicado.
A psicanálise não "cura" Norman, mas fornece a chave interpretativa para a tragédia. O discurso final do psiquiatra no filme é, na verdade, uma explicação psicanalítica simplificada para a polícia.
A psicanálise nos permite ver Norman não como um "monstro", mas como um produto de uma dinâmica familiar doentia e de uma mente que se fraturou para sobreviver a um trauma insuportável. Ela explica a lógica interna da loucura. As ações de Norman, por mais bizarras que sejam, seguem uma lógica interna baseada em desejos inconscientes, culpa e mecanismos de defesa falhos.
(Texto publicado em meu IG em 28/10/2025)
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