O sabá de Samhain e a Psicanálise

Sou Bruxa de raízes eslavas - russa. No entanto, no dia de hoje, fala-se muito no sabbat Celta Samhain, que popularizou-se a partir da intervenção da igreja católica como Dia das Bruxas. 

A conexão entre Samhain e a Psicanálise é profunda, pois ambos lidam com os temas fundamentais da condição humana: a morte, a sombra, a memória e o que está além do nosso controle consciente.

No folclore celta, Samhain é um momento liminar, onde o véu entre os mundos (dos vivos e dos mortos) se torna fino. É um período perigoso, onde ordem normal é suspensa, e entidades, espíritos e forças ancestrais podem atravessar para o nosso mundo.

Na Psicanálise, Freud falou sobre o recalcado, que são desejos e lembranças inaceitáveis para o nosso "eu" consciente, empurrados para o inconsciente. No entanto, o recalcado sempre retorna em sonhos, atos falhos, chistes e, principalmente, nos sintomas neuróticos.

Samhain pode ser visto como uma metáfora cultural para o retorno do recalcado. Assim como os espíritos atravessam o véu na noite de Samhain, os conteúdos do nosso inconsciente atravessam o véu da repressão para se manifestar, exigindo reconhecimento e integração. A noite em que os mortos voltam é, simbolicamente, o momento em que nossos traumas, memórias dolorosas, aspectos negados de nós mesmos - batem à porta da nossa consciência.

A morte como processo e transformação

Samhain trata da morte, não como fim absoluto, mas parte de um ciclo de morte e renascimento natural. Na psicanálise, para que uma mudança psicológica profunda ocorra, estruturas antigas do Ego (identidades, crenças, padrões de comportamento) precisam morrer para que algo novo possa emergir. O processo analítico é, em si, um rito de passagem onde velhas narrativas pessoais são desconstruídas para dar lugar a novas.

Luto, Memória e Ancestralidade

Muito do trabalho analítico consiste em fazer o luto de traumas, relacionamentos e versões de nós mesmos que já se foram. É um processo de revisitar nossas figuras parentais, experiências de infância e cadeias de transmissão psíquica familiar. A Associação Livre é, em essência, um convite para que essas "vozes" do passado se manifestem. Samhain ritualiza essa comunicação; a psicanálise a torna possível através da fala e da relação terapêutica.

A conexão não é meramente poética, mas estrutural. Tanto Samhain quanto a prática psicanalítica são tecnologias simbólicas criadas para lidar com os mesmos abismos:

O abismo entre a vida e a morte.

O abismo entre a consciência e o inconsciente.

O abismo entre quem somos e quem negamos ser.

Enquanto Samhain faz isso através do mito, do ritual e da comunidade, a psicanálise o faz através da palavra, da relação terapêutica e da interpretação. Ambas são mapas para navegar os territórios mais sombrios e ricos da existência humana.


(Texto publicado em meu IG em 31/10/25)

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