"Memórias do Subsolo" de Dostoyevsky e a Psicanálise

Depois de muito tempo empoeirando na estante, finalmente li "Memórias do Subsolo" de Fiódor Dostoyevsky. Apesar de pequeno, é intenso e visceral. 

O livro, publicado em 1864, é um marco do existencialismo. É dividido em duas partes: a primeira, O Subsolo, é um monólogo de um homem amargo e isolado, um anti-herói que critica o racionalismo, o progresso e as utopias sociais de sua época. A segunda parte, A Propósito da Neve Molhada, traz três memórias de sua vida, incluindo humilhações e conflitos interpessoais que revelam sua autodestruição e incapacidade de se relacionar.

A obra traz conexões profundas com a Psicanálise, uma vez que Dostoiévski descreve mecanismos neuróticos e masoquistas. O narrador é um precursor do sujeito moderno fragmentado, cuja consciência oscila entre desejo, culpa e autopunição. 

Alguns pontos interessantes:

Autossabotagem

O protagonista é um homem profundamente dividido, consciente de sua própria miséria, mas incapaz de mudar. Ele age contra si mesmo, como quando humilha a prostituta Liza após um momento de vulnerabilidade. Esse mecanismo remete ao conceito freudiano de repetição e pulsão de morte (todestrieb), em que reproduzimos padrões dolorosos, mesmo sabendo que são destrutivos. 

Racionalização e defesas do Ego 

Ele justifica seu isolamento com filosofias niilistas e argumentos cínicos, mas esconde uma ferida narcísica. Isso lembra a racionalização na psicanálise — um mecanismo de defesa para evitar confrontar dores emocionais mais profundas. 

O desejo de sofrimento

O subsolo - literal e metafórico - é um espaço perverso: ele precisa de sua infelicidade para existir - uma satisfação em manter-se na posição de vítima. 

(Este post foi publicado em meu IG em 09/06/2025)


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

"Conhece-te a ti mesmo". Autoconhecimento existe?

Fausto e Mephisto. O desejo do desejo do desejo

O filme Psicose e a Psicanálise