A obra Frankenstein e a Psicanálise
Um livro intenso, trágico e de muita sensibilidade, Frankenstein marcou profundamente o movimento gótico europeu.
Em 1816, Mary Shelley e o poeta Percy Bysshe Shelley passavam férias na Suíça, junto com Lord Byron e John Polidori. Devido ao clima frio e chuvoso, o grupo passava muito tempo dentro de casa.
Byron então propôs um desafio: cada um deveria escrever uma história de terror. Dessa brincadeira surgiram duas obras importantes:
- Frankenstein, considerada a primeira obra de ficção científica.
- O Vampiro, de John Polidori, uma das primeiras histórias sobre vampiros na literatura, que mais tarde influenciaria Drácula, de Bram Stoker.
Mary Shelley publica o livro anonimamente em 1818 e muitos atribuíram a obra a Percy Shelley devido ao prefácio que ele escreveu. Somente em 1823, com a segunda edição, o nome de Mary Shelley apareceu como autora.
A história
Viktor Frankenstein é fascinado por ciências naturais. Após a morte de sua mãe, ele vai estudar ciências na Alemanha, onde fica obcecado com a ideia de criar vida a partir da matéria inanimada. Usando partes de cadáveres, Viktor constrói um ser humanoide e o traz à vida. Porém, ao ver a criatura viva, ele entra em pânico com sua aparência grotesca e foge, abandonando-a. A criatura, inicialmente inocente, é rejeitada por todos e tratada com violência. Ela foge para a floresta, onde aprende a sobreviver sozinha, a falar, ler e desenvolver sentimentos. Revoltada com a solidão e a crueldade humana, a criatura exige que Viktor crie uma companheira para ele. Viktor começa, mas a destrói antes de terminá-la, temendo consequências. Em retaliação, a criatura assassina pessoas próximas a Viktor.
A criatura encarna traumas de abandono e a luta por reconhecimento. Sua jornada reflete temas como a constituição do eu, a relação com o Outro e a violência como resposta à exclusão simbólica.
Elaboro alguns pontos a partir de seu olhar trágico:
- O trauma da rejeição e o complexo de abandono
A criatura é rejeitada imediatamente por seu criador. Essa rejeição inicial configura um trauma originário, como um abandono parental na infância. Seu comportamento violento posterior pode ser interpretado como uma acting out decorrente da rejeição, uma tentativa desesperada de chamar a atenção de Viktor - que assume um papel de "pai" ausente e negligente.
- O desejo de reconhecimento
Sua busca por aceitação reflete a dependência do Outro para constituir sua identidade. Como ninguém a reconhece como sujeito, ela internaliza a imagem monstruosa que lhe é imposta.
- A falta da figura materna
Viktor dá vida à criatura e não exerce qualquer cuidado, gerando um ser que nunca experimentou o amor primário (materno). A ausência da mãe - tanto na vida de Viktor quanto na da criatura - pode ser associada à angústia de um ser incompleto, condenado a vagar sem vínculos estáveis
- Pulsão de morte e destrutividade
A criatura, inicialmente bondosa, torna-se violenta após repetidas rejeiçōes. Seus atos de vingança contra Viktor podem ser vistos como uma repetição traumática, numa tentativa dele experimentar a dor que sentiu.
- Linguagem e simbolização
Apesar de aprender a falar, a criatura nunca é ouvida. Sua fala é, então, uma subjetividade que a sociedade se recusa a reconhecer.
(Este texto foi publicado em meu IG em 30/06/2025)
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