O "Mercador de Veneza" e a Psicanálise

Assisti "O Mercador de Veneza" no teatro, aqui no Rio. A peça de William Shakespeare traz insights bem legais com a Psicanálise através de várias perspectivas, especialmente ao analisar os personagens, seus conflitos internos e suas dinâmicas psicológicas e sociais. 

O personagen Shylock, em particular, é uma figura trágica cuja psicologia antecipa conceitos freudianos sobre trauma, repetição e identificação com o agressor.

Algumas possíveis conexões:

Shylock e o trauma da exclusão 

Shylock é uma figura complexa que pode ser analisada sob a ótica do ressentimento e do desejo de vingança como resposta à opressão social. Ele reflete a humilhação internalizada e o desejo de reconhecimento, temas caros à psicanálise. A exigência de "um pedaço de carne" pode ser interpretada como uma defesa psíquica que transforma a dor em agressividade.

Bassânio e o Complexo de Édipo 

Bassânio busca fortuna e status através do casamento com Pórcia, o que pode ser lido como uma tentativa de superar uma posição de dependência infantil em relação a Antônio, seu protetor. A escolha entre os três baús (ouro, prata e chumbo) pode simbolizar um rito de passagem edipiano, onde ele precisa renunciar ao desejo imediato (ouro = vaidade) para alcançar a maturidade (chumbo = humildade)

Poder x Desumanização

Shylock reduz Antônio a um "pedaço de carne", o que ecoa a ideia de desumanização como mecanismo de defesa. O dinheiro é um símbolo de poder e afeto: Bassânio o usa para conquistar Pórcia; Shylock, para compensar sua exclusão. Freud analisa como o dinheiro pode se tornar um fetiche que substitui relações humanas autênticas.


Referência de leitura: BLOOM, Harold. Shakespeare: A Invenção do Humano. (Tradução de José Roberto O’Shea)  

(Este post foi publicado em meu IG em 30/06/2025)

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